Ônibus
– Eu disse pra ele que não aguento mais! Ou arruma um emprego ou sai de casa! – dispara uma senhora para a amiga ao lado.
Ela carrega tantas sacolas que fico me perguntando como conseguiu entrar no ônibus. Baixinha, cabelos curtos, testa franzida, ela despeja sua indignação enquanto recebe da colega uma aprovação que parece um bálsamo de sabedoria e empoderamento.
– O que ele pensa? Que eu sou a mãezinha dele? – completa, com a voz embargada de raiva e cansaço.
O celular de alguém grita para todo ônibus escutar: “Meu chefe tá ficando louco!”
Outro, como se respondesse: “Porque você não vem hoje? Tá tudo pronto.”
Concordo com o cantor Estêvão Queiroga que filosofou, em forma de música, que em conversas aleatórias “Ninguém é o vilão, na própria história”.
Em qualquer lugar, com qualquer um, isso é uma verdade absoluta.
Como se já não bastasse a troca de áudios indiscretos, no fundo, a adolescente compartilha sua trilha sonora: “Tum tá tum táum… chu tchu tcha…”. A batida corre atrás de uma letra imprópria para meus leitores.
Na poltrona ao lado, um senhor tem o celular posicionado para uma sessão de cinema particular. Fones de ouvido bem encaixados, olhos semicerrados. Talvez esteja dormindo. Talvez tenha trabalhado a noite toda. Talvez esteja perdendo o episódio. Mas, com sorte, está ganhando um descanso merecido.
Esses celulares agora desdobram como origamis tecnológicos. Daqui a pouco alguém vai abrir uma tela de 32 polegadas com som surround, igual fazíamos com o jornal de papel, esticado no colo.
Tem gente que acha que o ônibus é uma extensão da sala de estar.
Liga o viva-voz e começa a narrar a vida em capítulos.
Não preciso saber que a máquina de lavar quebrou, que a creche está sem fralda ou que a tia do interior vai mandar carne seca pelo ônibus da meia-noite.
Muito menos ouvir sobre o barraco da ex na última festa.
Também não quero escutar o Reels motivacional que o cara recebeu do coach, nem o vídeo do influencer que a menina segue, ou a sofrência de um sertanejo universitário.
Tento não prestar atenção, mas é impossível.
A fofoca é um ímã.
Sem perceber, estou preso na novela alheia.
Agora estou aqui, emocionalmente envolvido com Fernanda e Marcelo.
Eles pareciam tão bem…
Por que ela traiu?
Quem é o outro?
Será que ele vai descobrir?
Droga!
Preciso descer…
Na volta, talvez eu descubra como está o Marcelo.
Ela carrega tantas sacolas que fico me perguntando como conseguiu entrar no ônibus. Baixinha, cabelos curtos, testa franzida, ela despeja sua indignação enquanto recebe da colega uma aprovação que parece um bálsamo de sabedoria e empoderamento.
– O que ele pensa? Que eu sou a mãezinha dele? – completa, com a voz embargada de raiva e cansaço.
O celular de alguém grita para todo ônibus escutar: “Meu chefe tá ficando louco!”
Outro, como se respondesse: “Porque você não vem hoje? Tá tudo pronto.”
Concordo com o cantor Estêvão Queiroga que filosofou, em forma de música, que em conversas aleatórias “Ninguém é o vilão, na própria história”.
Em qualquer lugar, com qualquer um, isso é uma verdade absoluta.
Como se já não bastasse a troca de áudios indiscretos, no fundo, a adolescente compartilha sua trilha sonora: “Tum tá tum táum… chu tchu tcha…”. A batida corre atrás de uma letra imprópria para meus leitores.
Na poltrona ao lado, um senhor tem o celular posicionado para uma sessão de cinema particular. Fones de ouvido bem encaixados, olhos semicerrados. Talvez esteja dormindo. Talvez tenha trabalhado a noite toda. Talvez esteja perdendo o episódio. Mas, com sorte, está ganhando um descanso merecido.
Esses celulares agora desdobram como origamis tecnológicos. Daqui a pouco alguém vai abrir uma tela de 32 polegadas com som surround, igual fazíamos com o jornal de papel, esticado no colo.
Tem gente que acha que o ônibus é uma extensão da sala de estar.
Liga o viva-voz e começa a narrar a vida em capítulos.
Não preciso saber que a máquina de lavar quebrou, que a creche está sem fralda ou que a tia do interior vai mandar carne seca pelo ônibus da meia-noite.
Muito menos ouvir sobre o barraco da ex na última festa.
Também não quero escutar o Reels motivacional que o cara recebeu do coach, nem o vídeo do influencer que a menina segue, ou a sofrência de um sertanejo universitário.
Tento não prestar atenção, mas é impossível.
A fofoca é um ímã.
Sem perceber, estou preso na novela alheia.
Agora estou aqui, emocionalmente envolvido com Fernanda e Marcelo.
Eles pareciam tão bem…
Por que ela traiu?
Quem é o outro?
Será que ele vai descobrir?
Droga!
Preciso descer…
Na volta, talvez eu descubra como está o Marcelo.


