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Herói
Dizem que todo herói precisa de um chamado. A tal “Jornada do Herói” é basicamente um sujeito tentando fazer algo simples enquanto o universo decide que não. Pois bem. Cheguei com a antecedência de quem vai embarcar para Marte. Quarenta e cinco minutos depois, eu já tinha exaurido a internet. Já sabia qual celebridade se separou, qual receita de airfryer prometia mudar minha vida e todas as notícias disponíveis. Eu já era um
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Por que orar?
Sabe, eu passo muito tempo tentando reconciliar a lógica com a minha fé. Este é o primeiro de uma série de cinco posts onde quero compartilhar com vocês os maiores "nós" na minha cabeça sobre a oração. O primeiro deles é sobre a onisciência de Deus. Se Ele é esse Ser que conhece o fim desde o princípio e mapeia cada pensamento meu antes mesmo de eu formular uma frase, por que eu ainda tenho de me ajoelhar e contar tudo para Ele? Às vezes, me sinto meio bobo, como se estivesse tentando dar uma notícia de última hora para alguém que já leu o jornal de amanhã. A limitação…
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Deus se importa?
Fico muito confuso quando vejo pessoas agradecendo a Deus por terem encontrado uma vaga no estacionamento, enquanto, no mesmo dia, um terremoto mata milhares de pessoas em outro canto do mundo. Dá uma sensação de que Deus é arbitrário, sabe? Como se Ele escolhesse a dedo quem vai receber um "mimo" e quem vai enfrentar uma tragédia apocalíptica. Será que Deus realmente Se importa com o meu pen-drive perdido enquanto
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Por que Deus não responde?
Mas tem dias que eu sinto que a minha oração é como uma mensagem enviada que nunca ganha o check azul de visualizada. É angustiante essa sensação de que a resposta é uma loteria: Por que aquela artista foi curada e a minha mãe, que era muito mais dedicada à igreja, não foi? Porque a vida da minha esposa foi poupada depois de sofrer um atropelamento por um motoqueiro inconsequente e minha irmã não saiu viva de uma cirurgia simples? Porque incompetentes, maledicentes e ardilosos são promovidos e aquele que se entrega ao trabalho fica na berlinda de perder o emprego? Não são indagações inéditas – longe disso. Eva deve…
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Deus pode ser convencido?
Depois de passar pelo dilema do silêncio, percebi que talvez o silêncio é o resultado de uma conversa em que eu não entrei por inteiro. Vou ser sincero: às vezes eu me sinto um pouco hipócrita na hora de orar. Parece que eu visto um "personagem religioso", uso palavras mais bonitas e tento parecer mais santo ou mais coitadinho para “convencer” Deus. Isso não pode estar certo. Parece farisaísmo. Será que Deus quer que eu
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Qual o segredo da oração?
Vivemos nm estado de urgência constante, que transformou nossa existência em uma corrida sem linha de chegada. Sinto que estou sempre correndo contra o tempo e minha vida de oração acaba virando apenas mais um item a ser "ticado" em uma lista de tarefas intermináveis. Quando reservo um momento para falar com Deus, minha mente já está no próximo compromisso. Entro na presença de Deus carregado de fardos e
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Gatinhos
O portão da escola é um laboratório social. As crianças chegam em câmera lenta, envoltas no casaco do uniforme, num silêncio que pesa. Olho para elas e vejo gatinhos que começam a se aventurar fora do ninho. Há dias em que o “bom dia” flutua no ar e cai no chão, sem resposta. Elas passam direto. É o corpo que atravessa o portão; a vida ainda ficou sob o edredom. Um protesto mudo contra o desjejum apressado, o uniforme obrigatório, o trânsito. Quem tem humor para o mundo antes das oito? Eu, nos meus cinquenta, ainda o procuro — quase todas as manhãs. Quando
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Vibrou
O meu bolso vibrou. Juro que vibrou. E eu não dei autonomia para ele vibrar sozinho. Dizem que duas em cada três pessoas já sentiram isso. A terceira está mentindo. A coreografia é sempre a mesma: você sente a vibração, pega o celular, olha… e nada. Então passa pelo ritual universal da cara de paisagem, fingindo que desbloqueia a tela por iniciativa própria, só para “ver as horas”. Descobri, lendo aqui e ali, que isso
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Contadora
Minha mãe era especialista em contar histórias. Tenho muitas dessas lembranças guardadas, algumas vívidas como se tivessem acontecido ontem. Tive a sorte de ser aluno dela em duas séries: Pré e 3ª (hoje 4º ano). Quando eu era pequeno, ousei mentir sobre algo que já nem me lembro. Então ela me contou uma história do
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Scroll Up
Quero deixar registrado, por meio desta crônica aberta, o meu protesto formal contra o scroll up. Houve um tempo em que preencher um cadastro tinha o tom de uma conversa. Alguém perguntava, e eu respondia, e a vida seguia com relativa dignidade. Depois vieram os formulários de papel, que exigiam um certo compromisso com a caligrafia. De repente, nasceram os formulários digitais. No começo, eles moravam nos computadores da lan house ou no PC de casa, quando ainda havia a ilusão de que tecnologia era algo que eu visitava. Em algum momento, sem aviso prévio, esses
















