Leitura,  Memórias

Contadora

Minha mãe era especialista em contar histórias. Tenho muitas dessas lembranças guardadas, algumas vívidas como se tivessem acontecido ontem. Tive a sorte de ser aluno dela em duas séries: Pré e 3ª (hoje 4º ano).
 
Quando eu era pequeno, ousei mentir sobre algo que já nem me lembro. Então ela me contou uma história do livro Pérolas Esparsas (1968, CPB): A Mentira Fatal.

Pérolas Esparsas (CPB, 1968)
O livro usado por minha mãe

Berta pede à tia Rute que conte uma história, e Rute relata um episódio da própria infância. Movida pela inveja, mentiu sobre a colega Ana Clara, que acabou injustamente castigada.
Apesar de ter obtido o primeiro lugar na sala, Rute passou a noite atormentada pela culpa. Tentou pedir perdão ainda de madrugada, mas Ana, que já estava gravemente doente, morreu antes de ouvir suas palavras.
A história marcou profundamente Rute — e marcou a mim também. Minha mãe sempre chorava ao contar sobre a morte de Aninha, e eu entendi, desde cedo, a força de uma boa história.
 
Anos depois, quando lançaram os filmes As Crônicas de Nárnia, minha mãe mal podia conter a empolgação. Confesso que eu nunca tinha ouvido falar da obra, mas o gosto por histórias é contagioso – ou hereditário. Entrei de cabeça em Nárnia, junto com ela.
 
Depois de assistir todos os filmes, resolvi ler o livro compilado com todos os volumes. Me encantei com C. S. Lewis: sua escrita, sua imaginação, sua capacidade de transformar lições de vida em aventuras fantásticas. Pesquisei sobre sua vida e sua conversão e influências. Descobri que se inspirou em George MacDonald (Phantastes), que era amigo de J. R. R. Tolkien (O Senhor dos Anéis), e admirava Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas) e G. K. Chesterton (O Homem Eterno).
 
Quando você termina de ler um livro de Lewis, fica aquele vácuo — você não quer que acabe. Como não se apaixonar por Aslan, o leão majestoso que habita Nárnia? Seus atos de amor e sacrifício mostram que o bem já venceu o mal. E suas palavras ainda me arrepiam, tanto no livro quanto no filme:

Aslan

Rei acima de todos
os Altos Reis

No seu mundo eu tenho outro nome.
Foi exatamente por isso que você foi trazido para Nárnia…
para que, me conhecendo um pouco aqui,
você me conhecesse melhor lá.

As Crônicas de Nárnia me ensinaram que histórias aparentemente simples podem criar universos duradouros e influenciar gerações. Algumas histórias nunca acabam — elas apenas continuam vivas dentro de quem as ouviu.

No meu caso, a contadora também.

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