Vibrou
O meu bolso vibrou.
Juro que vibrou.
E eu não dei autonomia para ele vibrar sozinho.
Dizem que duas em cada três pessoas já sentiram isso.
A terceira está mentindo.
A coreografia é sempre a mesma: você sente a vibração, pega o celular, olha… e nada.
Então passa pelo ritual universal da cara de paisagem, fingindo que desbloqueia a tela por iniciativa própria, só para “ver as horas”.
Descobri, lendo aqui e ali, que isso tem nome elegante: síndrome da vibração fantasma.
Nome que tenta disfarçar uma vergonha íntima.
A verdade é que o celular já não é um objeto.
É um órgão.
A gente não segura o aparelho — sustenta um fígado extra.
E se esse “órgão” cai no chão, a pessoa se joga atrás com a mesma agilidade de quem tenta salvar um bebê engatinhando na rua.
Isso diz muito sobre nós:
nossa disponibilidade afetiva permanente,
a necessidade de ser mencionado o tempo todo,
a dependência da recompensa.
Vivemos preparados para que algo aconteça — e, se não acontece, o corpo inventa.
Vibrou de novo.
Você sentiu?
Puxei o celular, já desconfiado.
Nada.
Por alguns segundos, fico sinceramente ofendido com um mundo que não tenha nada a me dizer.
Depois penso melhor: o mundo anda com tanto problema que talvez seja melhor ele ficar na dele e eu na minha.
Guardei o celular.
Vibrou de novo.
Ignorei.
Tocou.
— Alôôôuu?
— Mor! Pra que você tem esse telefone, se não me atende?!
Juro que vibrou.
E eu não dei autonomia para ele vibrar sozinho.
Dizem que duas em cada três pessoas já sentiram isso.
A terceira está mentindo.
A coreografia é sempre a mesma: você sente a vibração, pega o celular, olha… e nada.
Então passa pelo ritual universal da cara de paisagem, fingindo que desbloqueia a tela por iniciativa própria, só para “ver as horas”.
Descobri, lendo aqui e ali, que isso tem nome elegante: síndrome da vibração fantasma.
Nome que tenta disfarçar uma vergonha íntima.
A verdade é que o celular já não é um objeto.
É um órgão.
A gente não segura o aparelho — sustenta um fígado extra.
E se esse “órgão” cai no chão, a pessoa se joga atrás com a mesma agilidade de quem tenta salvar um bebê engatinhando na rua.
Isso diz muito sobre nós:
nossa disponibilidade afetiva permanente,
a necessidade de ser mencionado o tempo todo,
a dependência da recompensa.
Vivemos preparados para que algo aconteça — e, se não acontece, o corpo inventa.
Vibrou de novo.
Você sentiu?
Puxei o celular, já desconfiado.
Nada.
Por alguns segundos, fico sinceramente ofendido com um mundo que não tenha nada a me dizer.
Depois penso melhor: o mundo anda com tanto problema que talvez seja melhor ele ficar na dele e eu na minha.
Guardei o celular.
Vibrou de novo.
Ignorei.
Tocou.
— Alôôôuu?
— Mor! Pra que você tem esse telefone, se não me atende?!


