Gatinhos
O portão da escola é um laboratório social.
As crianças chegam em câmera lenta, envoltas no casaco do uniforme, num silêncio que pesa. Olho para elas e vejo gatinhos que começam a se aventurar fora do ninho.
Há dias em que o “bom dia” flutua no ar e cai no chão, sem resposta.
Elas passam direto.
É o corpo que atravessa o portão; a vida ainda ficou sob o edredom.
Um protesto mudo contra o desjejum apressado, o uniforme obrigatório, o trânsito.
Quem tem humor para o mundo antes das oito?
Eu, nos meus cinquenta, ainda o procuro — quase todas as manhãs.
Quando a Shadow entra nesse blue mood, não há chamego que a alcance.
Ela me diz com o olhar:
“Me deixa quieta. Depois eu melhoro.”
A Nina, em dias de neblina interna, quase não se move.
Acompanha o mundo apenas com os olhos.
Economiza energia, até que levantar faça sentido.
Mas a vida tem muitos despertares.
Outro dia, a mesma criança surge com um sorriso maior que o rosto.
O “bom dia” é pouco; ela precisa de abraço, de conversa atropelada, de dividir o próprio entusiasmo com quem cruzar o caminho.
O que mudou?
O pão é o mesmo, a casa é a mesma, o trajeto não encurtou.
Mas, por alguma razão, o sol parece ter nascido só para ela.
Como quando a Nina decide me acordar.
Enrosca-se, anda sobre meu corpo, levanta o rabo em saudação, espreguiça-se no arranhador como quem celebra a própria existência. Sobe em tudo. Só sossega quando pego no colo. Ela encosta a cabeça no meu ombro e libera aquele ronronar — o som mais gostoso do mundo.
O dia, então, ganha cor.
A Shadow prefere chegar antes do despertador.
Vem de mansinho e se deita ao meu lado — meio corpo na cama, meio corpo apoiado em mim. Quando o celular toca, ela já espera: é hora do primeiro carinho do dia.
Mas o ritual só se completa no desjejum.
Ela estaciona ao lado da cadeira com olhar suplicante e firme propósito.
Num salto preciso, toma posse do meu colo. Exige o braço esquerdo. Não importa se ele seria útil para passar manteiga no pão.
Seus dedinhos, com unhas que sabem a própria força, me agarram como quem declara:
“É meu.”
Escola e casa. Mochilas e miados.
Acho que somos todos bichos tentando descobrir como se acorda para a vida.
Há dias de bicho do mato.
Há dias de colo.
Com cinco ou cinquenta anos, seguimos assim:
dias de esperar o sol esquentar a alma,
dias de subir em todos os lugares, rabo erguido, celebrando o milagre de existir
e com a certeza de ter alguém que nos pegue no colo.
As crianças chegam em câmera lenta, envoltas no casaco do uniforme, num silêncio que pesa. Olho para elas e vejo gatinhos que começam a se aventurar fora do ninho.
Há dias em que o “bom dia” flutua no ar e cai no chão, sem resposta.
Elas passam direto.
É o corpo que atravessa o portão; a vida ainda ficou sob o edredom.
Um protesto mudo contra o desjejum apressado, o uniforme obrigatório, o trânsito.
Quem tem humor para o mundo antes das oito?
Eu, nos meus cinquenta, ainda o procuro — quase todas as manhãs.
Quando a Shadow entra nesse blue mood, não há chamego que a alcance.
Ela me diz com o olhar:
“Me deixa quieta. Depois eu melhoro.”
A Nina, em dias de neblina interna, quase não se move.
Acompanha o mundo apenas com os olhos.
Economiza energia, até que levantar faça sentido.
Mas a vida tem muitos despertares.
Outro dia, a mesma criança surge com um sorriso maior que o rosto.
O “bom dia” é pouco; ela precisa de abraço, de conversa atropelada, de dividir o próprio entusiasmo com quem cruzar o caminho.
O que mudou?
O pão é o mesmo, a casa é a mesma, o trajeto não encurtou.
Mas, por alguma razão, o sol parece ter nascido só para ela.
Como quando a Nina decide me acordar.
Enrosca-se, anda sobre meu corpo, levanta o rabo em saudação, espreguiça-se no arranhador como quem celebra a própria existência. Sobe em tudo. Só sossega quando pego no colo. Ela encosta a cabeça no meu ombro e libera aquele ronronar — o som mais gostoso do mundo.
O dia, então, ganha cor.
A Shadow prefere chegar antes do despertador.
Vem de mansinho e se deita ao meu lado — meio corpo na cama, meio corpo apoiado em mim. Quando o celular toca, ela já espera: é hora do primeiro carinho do dia.
Mas o ritual só se completa no desjejum.
Ela estaciona ao lado da cadeira com olhar suplicante e firme propósito.
Num salto preciso, toma posse do meu colo. Exige o braço esquerdo. Não importa se ele seria útil para passar manteiga no pão.
Seus dedinhos, com unhas que sabem a própria força, me agarram como quem declara:
“É meu.”
Escola e casa. Mochilas e miados.
Acho que somos todos bichos tentando descobrir como se acorda para a vida.
Há dias de bicho do mato.
Há dias de colo.
Com cinco ou cinquenta anos, seguimos assim:
dias de esperar o sol esquentar a alma,
dias de subir em todos os lugares, rabo erguido, celebrando o milagre de existir
e com a certeza de ter alguém que nos pegue no colo.


