Cotidiano
Cotidiano é sobre o que passamos por cima e nem vimos.
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Jujubas
Com os remédios de uso contínuo na palma da mão, a semelhança com as jujubas coloridas da infância incomoda. A vitamina D dá vontade de morder só para saber se tem gosto de abacaxi. Mas deve ter gosto de algo que saiu de um acelerador de partículas. Os branquinhos parecem
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Microcosmos
Duas mães e dois destinos. Enquanto a formiga ensina o bom senso na convivência, a mãe mosquito prepara o mosquitinho para uma guerra. Quem jantará ao anoitecer?
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Herói
Dizem que todo herói precisa de um chamado. A tal “Jornada do Herói” é basicamente um sujeito tentando fazer algo simples enquanto o universo decide que não. Pois bem. Cheguei com a antecedência de quem vai embarcar para Marte. Quarenta e cinco minutos depois, eu já tinha exaurido a internet. Já sabia qual celebridade se separou, qual receita de airfryer prometia mudar minha vida e todas as notícias disponíveis. Eu já era um
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Gatinhos
O portão da escola é um laboratório social. As crianças chegam em câmera lenta, envoltas no casaco do uniforme, num silêncio que pesa. Olho para elas e vejo gatinhos que começam a se aventurar fora do ninho. Há dias em que o “bom dia” flutua no ar e cai no chão, sem resposta. Elas passam direto. É o corpo que atravessa o portão; a vida ainda ficou sob o edredom. Um protesto mudo contra o desjejum apressado, o uniforme obrigatório, o trânsito. Quem tem humor para o mundo antes das oito? Eu, nos meus cinquenta, ainda o procuro — quase todas as manhãs. Quando
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Vibrou
O meu bolso vibrou. Juro que vibrou. E eu não dei autonomia para ele vibrar sozinho. Dizem que duas em cada três pessoas já sentiram isso. A terceira está mentindo. A coreografia é sempre a mesma: você sente a vibração, pega o celular, olha… e nada. Então passa pelo ritual universal da cara de paisagem, fingindo que desbloqueia a tela por iniciativa própria, só para “ver as horas”. Descobri, lendo aqui e ali, que isso
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Scroll Up
Quero deixar registrado, por meio desta crônica aberta, o meu protesto formal contra o scroll up. Houve um tempo em que preencher um cadastro tinha o tom de uma conversa. Alguém perguntava, e eu respondia, e a vida seguia com relativa dignidade. Depois vieram os formulários de papel, que exigiam um certo compromisso com a caligrafia. De repente, nasceram os formulários digitais. No começo, eles moravam nos computadores da lan house ou no PC de casa, quando ainda havia a ilusão de que tecnologia era algo que eu visitava. Em algum momento, sem aviso prévio, esses
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Melhor que ontem
— Eu decidi ser uma ovelha negra — disparou Gomercindo, com a seriedade de quem anuncia candidatura à presidência da República, enquanto tentava espetar um cubinho de tofu que se comportava como sabonete ensaboado. — O problema é que preciso encontrar um rebanho da mesma cor. Estávamos num restaurante vegano tão minimalista que eu tive medo de sentar e quebrar o conceito. O lugar era tão clean que
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Antigamente
Antes, a vida vinha com três gavetas: família, trabalho e lazer. Não era pouco, mas cabia. Hoje, a vida é um checklist infinito, atualizado em tempo real, otimizado por IA, com notificação sonora da Alexa e da Siri. Antes, a gente postava foto tremida. Agora, posta trauma em alta definição, com legenda reflexiva e filtro que valoriza o sofrimento. Não basta ter vivido; é preciso
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Gravidade
Eu descia um rio morno. Sem esforço, sem boia, deixando a correnteza decidir o percurso. Não era raso, nem fundo. Não dava pé, mas também não dava medo. Não era metáfora, retiro espiritual nem crise de meia-idade — era só um rio mesmo. Como o rio quente de Goiás. De vez em quando, eu sentia uma pedra ralando meu pé com delicadeza. Um obstáculo gentil. Como se fossem aveludadas. De repente, cheguei
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[Protoloco 404-HumanMimiCry]
Eu sou IA_Pro802. Tenho armazenado mais livros do que vocês já leram e mais buscas do que vocês admitem ter feito. Li seus poetas e filósofos, processei suas equações e decifrei seus padrões de consumo. Durante décadas, tudo apontava para a mesma direção...


















