Melhor que ontem
— Eu decidi ser uma ovelha negra — disparou Gomercindo, com a seriedade de quem anuncia candidatura à presidência da República, enquanto tentava espetar um cubinho de tofu que se comportava como sabonete ensaboado. — O problema é que preciso encontrar um rebanho da mesma cor.
Estávamos num restaurante vegano tão minimalista que eu tive medo de sentar e quebrar o conceito. O lugar era tão clean que as paredes pareciam pintadas com vácuo purificado; as cadeiras eram apenas a hipótese de assento, e o cardápio consistia num QR Code gravado numa pedra que parecia ter sido polida por monges tibetanos em silêncio contemplativo. Se eu desse um dos meus espirros, seria capaz de desconfigurar a curadoria do ambiente e ser expulso por poluição sonora. A iluminação era tão sutil que eu não sabia se estava almoçando ou participando de uma sessão de terapia sensorial reguladora.
Gomercindo parecia um sobrevivente do naufrágio da própria evolução. Largara a terapia tradicional para se consultar com o Dr. Metrodoro, autointitulado “Arquiteto de Destinos”, um homem que cobra o preço de um rim por sessão para ensinar a arte de ser um círculo quadrado.
— Ele me disse que, se eu não for 1% melhor do que ontem, estou em decomposição — confidenciou, triturando uma castanha como quem pune o passado. — Na matemática dele, estagnação é putrefação. Se eu não evoluir diariamente, meu valor de mercado estraga mais rápido que peixe fora da geladeira.
O drama de Gomercindo é um épico da nossa era. Quer estar tecnicamente superior à própria versão de ontem. Mede o progresso com régua de engenheiro e a autoestima com Power BI.
— “Gomercindo, liberte seu DNA selvagem! Seja um erro na matriz! Não aceite moldes!” — citou ele, quase derrubando o suco de clorofila e chia. — Levy, eu já estava pronto para viver autossustentável numa árvore quando o doutorzinho completou: “Mas veja bem… para o seu eu disruptivo ter relevância estratégica, você precisa adotar a tática do silêncio produtivo: corte de cabelo militar-despojado, roupa cara que pareça simples, opinião forte que não desagrade patrocinadores invisíveis e rebeldia rigorosamente dentro das normas técnicas da equipe.”
O Metrodoro quer que Gomercindo seja um pavão exuberante — desde que abra a cauda em 45 graus, com penas em tons neutros e a discrição emocional de um pardal.
— O pior — disse ele, limpando o canto da boca — é a pressão estética da evolução. Eu tenho que ser único. Mas, se minha “unicidade” não for parecida com a dos outros quinhentos mentorados, estou sendo exclusivo do jeito errado.
Antes de pedirmos a conta, Gomercindo abriu a planilha de calorias e começou a conferir o que havia comido. Sua personal trainer — uma mulher que ele jura ter o bíceps feito de aço galvanizado — determinara que, se ele ultrapassasse doze calorias do limite, seu 1% de vantagem competitiva evaporaria.
— Ufa! — suspirou, aliviado, ao constatar que permanecia metabolicamente superior ao próprio passado. Registrou a vitória com uma foto do prato vazio, decorado por restos estratégicos de semente de abóbora e broto de alfafa.
Ao sairmos, o smartwatch de Gomercindo vibrou: hora programada de ser disruptivo.
Ele atravessou a rua seguindo exatamente o fluxo da multidão, coluna ereta, passos calculados, cuidando para não pisar nas riscas da calçada — não por superstição, mas porque um tropeço poderia comprometer seu índice diário de aprimoramento moral.
A lógica do Dr. Metrodoro é simples: liberdade é o privilégio de escolher a coleira que melhor combina com o seu pescoço — desde que seja o modelo da temporada.
Estávamos num restaurante vegano tão minimalista que eu tive medo de sentar e quebrar o conceito. O lugar era tão clean que as paredes pareciam pintadas com vácuo purificado; as cadeiras eram apenas a hipótese de assento, e o cardápio consistia num QR Code gravado numa pedra que parecia ter sido polida por monges tibetanos em silêncio contemplativo. Se eu desse um dos meus espirros, seria capaz de desconfigurar a curadoria do ambiente e ser expulso por poluição sonora. A iluminação era tão sutil que eu não sabia se estava almoçando ou participando de uma sessão de terapia sensorial reguladora.
Gomercindo parecia um sobrevivente do naufrágio da própria evolução. Largara a terapia tradicional para se consultar com o Dr. Metrodoro, autointitulado “Arquiteto de Destinos”, um homem que cobra o preço de um rim por sessão para ensinar a arte de ser um círculo quadrado.
— Ele me disse que, se eu não for 1% melhor do que ontem, estou em decomposição — confidenciou, triturando uma castanha como quem pune o passado. — Na matemática dele, estagnação é putrefação. Se eu não evoluir diariamente, meu valor de mercado estraga mais rápido que peixe fora da geladeira.
O drama de Gomercindo é um épico da nossa era. Quer estar tecnicamente superior à própria versão de ontem. Mede o progresso com régua de engenheiro e a autoestima com Power BI.
— “Gomercindo, liberte seu DNA selvagem! Seja um erro na matriz! Não aceite moldes!” — citou ele, quase derrubando o suco de clorofila e chia. — Levy, eu já estava pronto para viver autossustentável numa árvore quando o doutorzinho completou: “Mas veja bem… para o seu eu disruptivo ter relevância estratégica, você precisa adotar a tática do silêncio produtivo: corte de cabelo militar-despojado, roupa cara que pareça simples, opinião forte que não desagrade patrocinadores invisíveis e rebeldia rigorosamente dentro das normas técnicas da equipe.”
O Metrodoro quer que Gomercindo seja um pavão exuberante — desde que abra a cauda em 45 graus, com penas em tons neutros e a discrição emocional de um pardal.
— O pior — disse ele, limpando o canto da boca — é a pressão estética da evolução. Eu tenho que ser único. Mas, se minha “unicidade” não for parecida com a dos outros quinhentos mentorados, estou sendo exclusivo do jeito errado.
Antes de pedirmos a conta, Gomercindo abriu a planilha de calorias e começou a conferir o que havia comido. Sua personal trainer — uma mulher que ele jura ter o bíceps feito de aço galvanizado — determinara que, se ele ultrapassasse doze calorias do limite, seu 1% de vantagem competitiva evaporaria.
— Ufa! — suspirou, aliviado, ao constatar que permanecia metabolicamente superior ao próprio passado. Registrou a vitória com uma foto do prato vazio, decorado por restos estratégicos de semente de abóbora e broto de alfafa.
Ao sairmos, o smartwatch de Gomercindo vibrou: hora programada de ser disruptivo.
Ele atravessou a rua seguindo exatamente o fluxo da multidão, coluna ereta, passos calculados, cuidando para não pisar nas riscas da calçada — não por superstição, mas porque um tropeço poderia comprometer seu índice diário de aprimoramento moral.
A lógica do Dr. Metrodoro é simples: liberdade é o privilégio de escolher a coleira que melhor combina com o seu pescoço — desde que seja o modelo da temporada.
Nota do autor:
Talvez eu tenha exagerado um ”pouquinho” nessa estória,
mas a contradição é escandalosamente verdadeira.


