Mentirinhas
Não existe nada mais ofensivo do que um roteiro que decide que o espectador sofre de demência temporária.
O herói está prestes a sair para uma missão impossível, o arco do personagem sendo pressionado ao máximo, quase rachando, mas ele olha para a mocinha e solta a pérola: “Eu vou voltar. Eu prometo”.
“Eu vou voltar” posso até considerar um desejo, o anseio de quem ama e não quer perder. Mas soltar um “Eu prometo”? Eu não consigo prometer isso nem quando saio de casa para comprar pão na padaria, quanto mais o protagonista que lutará contra uma multidão de zumbis contagiosos, comedores de cérebro.
A mocinha nem sabe o que responder. Se ela acredita, tem o mesmo transtorno ingênuo que o mocinho. Se ela fala: “Qual é, sério!?”, o que seria da trama? Então, ela escolhe a cena do beijo.
Uma promessa nessas circunstâncias não é um ato de bravura ou amor eterno; é um erro de cálculo metafísico. É o ápice da arrogância de quem vive numa realidade paralela.
Mas do que eu estou falando?
O filme é uma realidade paralela.
Sem essas falas dramáticas, seria documentário.
Entretanto, o que mais incomoda é a antecipação. A gente já sabe as falas de cor, sem nunca ter assistido. Quando acontece em todo filme não mais inédito.
Outro clichê: o vacilão redimido. Ele passou 95% da vida sendo um desastre total. Erra o nome da esposa, esquece o filho no posto de gasolina e não cumpre nem promessa com dedo mindinho. Aí, com a vida da família em risco, por culpa exclusivamente dele, ele pede: “Confie em mim”.
O quê!?
Mas por que raios alguém confiaria?
O roteirista acha que a confiança é um reset no videogame que você aperta antes do Game Over?
Confiança exige ter crédito na praça. Pedir confiança num momento desses é um crime contra a lógica e um insulto à minha inteligência.
Ainda tem o cara que deixou a esposa ao deus-dará, que nunca lembra a cor dos olhos dos filhos — que dirá a idade. Mas que na hora da morte, entre um suspiro e outro, sussurra para a ex-esposa: “Eu sempre te amei”.
O roteiro espera que eu chore, enquanto eu só sinto vontade de desligar a TV.
Dizem que em filme é tudo “mentirinha”. Mas eu tenho o direito de escolher o nível de sofisticação das mentiras que consumo.
A vida real já me empurra mentiras brutas suficientes. Da ficção, eu espero, no mínimo, a decência de uma “mentirinha” bem contada.
O herói está prestes a sair para uma missão impossível, o arco do personagem sendo pressionado ao máximo, quase rachando, mas ele olha para a mocinha e solta a pérola: “Eu vou voltar. Eu prometo”.
“Eu vou voltar” posso até considerar um desejo, o anseio de quem ama e não quer perder. Mas soltar um “Eu prometo”? Eu não consigo prometer isso nem quando saio de casa para comprar pão na padaria, quanto mais o protagonista que lutará contra uma multidão de zumbis contagiosos, comedores de cérebro.
A mocinha nem sabe o que responder. Se ela acredita, tem o mesmo transtorno ingênuo que o mocinho. Se ela fala: “Qual é, sério!?”, o que seria da trama? Então, ela escolhe a cena do beijo.
Uma promessa nessas circunstâncias não é um ato de bravura ou amor eterno; é um erro de cálculo metafísico. É o ápice da arrogância de quem vive numa realidade paralela.
Mas do que eu estou falando?
O filme é uma realidade paralela.
Sem essas falas dramáticas, seria documentário.
Entretanto, o que mais incomoda é a antecipação. A gente já sabe as falas de cor, sem nunca ter assistido. Quando acontece em todo filme não mais inédito.
Outro clichê: o vacilão redimido. Ele passou 95% da vida sendo um desastre total. Erra o nome da esposa, esquece o filho no posto de gasolina e não cumpre nem promessa com dedo mindinho. Aí, com a vida da família em risco, por culpa exclusivamente dele, ele pede: “Confie em mim”.
O quê!?
Mas por que raios alguém confiaria?
O roteirista acha que a confiança é um reset no videogame que você aperta antes do Game Over?
Confiança exige ter crédito na praça. Pedir confiança num momento desses é um crime contra a lógica e um insulto à minha inteligência.
Ainda tem o cara que deixou a esposa ao deus-dará, que nunca lembra a cor dos olhos dos filhos — que dirá a idade. Mas que na hora da morte, entre um suspiro e outro, sussurra para a ex-esposa: “Eu sempre te amei”.
O roteiro espera que eu chore, enquanto eu só sinto vontade de desligar a TV.
Dizem que em filme é tudo “mentirinha”. Mas eu tenho o direito de escolher o nível de sofisticação das mentiras que consumo.
A vida real já me empurra mentiras brutas suficientes. Da ficção, eu espero, no mínimo, a decência de uma “mentirinha” bem contada.


