Comportamento,  Cotidiano,  Pensamentos

Academia

Eu não gosto de academia.
Ia falar odeio, mas não quis banalizar o termo. Existem coisas muito piores para odiar.

Escrevo dentro de uma delas.

Não gosto do ambiente, do odor, do barulho, do que eu vejo.

Gemidos, gritos, esforços quase sobre-humanos de superação física. Homens usando camisetas estourando de tão apertadas ou fiapos de tecido pendurados nos ombros, sem qualquer propósito. Se o objetivo do ser humano é ter um braço grande, por que usar um torniquete?

Não vou comentar sobre o outro gênero.

Para mim, é como se eu estivesse na sala de espera do Instagram, com todas as postagens aguardando para serem publicadas.

Gente forte, saudável e feliz. Muito feliz. Tribos felizes que se confraternizam com a realização de algum feito. Eles entram em caravanas ou se encontram entre as máquinas e halteres. Compartilham receitas, dietas, suplementos e desafios. Espero que a lista termine aí.

É uma felicidade artificial? Não. Eles acreditam que não. Eu até acredito neles. Mas não compactuo. Definitivamente não é a minha praia.

Eles fazem o que fazem para melhorar a saúde ou para “meter o shape”. Para se tornarem uma escultura de Michelangelo. Imagem a qualquer custo — mesmo que a performance seja química.

Não é à toa que há tantos espelhos. Se fossem lagos, não haveria margem para tanto narciso.

Não conheço a história de ninguém ali. Vejo apenas o superficial — e é superficialmente que consigo entender também.

O que eles chamam de motivação, eu chamo de “misericórdia!”.
Me chama para duas horas de trekking, mas não me convide para vinte minutos de cárdio.

Não pense que estou aqui porque mudei o mindset. Tampouco é resolução de virada de ano. Se desse para fazer exercício amarrado, eu estaria atado a essa máquina que nem sei como funciona.

Não é que eu não goste de me exercitar. Exercício físico é um dos “Oito Remédios Naturais” que o Criador deixou para a humanidade.
É que “sedentar”* é mais confortável.

(*) A palavra sedentar não existe. (Não sei o que estão esperando — devem ser sedentários)

Essa deve ser a continuação da crônica do sacolão, porque estou no mesmo (mal) humor.

Olhando melhor, consigo identificar pessoas comuns. “Civis” no meio de atletas corpulentos e influenciadores de sabe-se lá o quê. Gente que só faz exercício. Discretos, concentrados e preocupados.

Buscam uma vida melhor. Uma velhice com menos dores crônicas e mais dores musculares — estas, ditas saudáveis. Sim, porque não há como machucar o músculo para fortalecê-lo sem que doa.

É, eu não tenho mais escolha.

A motivação que me trouxe a este antro narcisista não é a aparência. São minutos. Minutos de crédito de boa saúde. Sei que vou precisar deles.

De nada adianta estar livre do trabalho CLT para passar o dia no sofá vendo televisão, se depois não consigo levantar para passear com a esposa.

Se tudo isso me render cinco minutos a mais de vida ao lado dela,
tá pago.

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