Vizinhos Barulhentos
A gente paga aluguel por um apartamento buscando segurança e sossego, mas o que recebe é um pedacinho de inferno vertical.
O vizinho de cima, ao que tudo indica, segue uma rígida rotina de feng shui às 1h30 da manhã, movimentando um armário de cedro maciço, uma mesa de jantar de mogno e, no mínimo, doze cadeiras a cada 48 segundos.
O barulho de arrasto é o meu direito constitucional de dormir em paz sendo esmagado no assoalho.
Formalizei a reclamação por escrito, como manda o figurino da Guerra Fria Condominial.
Na tarde seguinte, o síndico bateu à minha porta. Aquele sujeito que, honestamente, parece ter feito um curso de mediação com pinguins, com especialização em araras. Veste a neutralidade como armadura, agarrado a imparcialidade — mesmo que o barulho seja um terremoto.
— Senhor Levy — começou ele, com a voz que tenta personificar a Paciência
— fui pessoalmente conversar com o morador do 104. Ele foi muito solícito, muito cordial.
Cruzei os braços, já esperando a negação.
— Claro que é solícito. O incomodado sou eu. E o que ele disse sobre a profanação do meu sono?
O síndico hesitante, como quem se prepara para citar um artigo obscuro da convenção.
— Ele assegurou que não há absolutamente ninguém acordado nesse horário e, portanto, não há móveis sendo movimentados.
— Como assim? Eu estou ouvindo a Terceira Guerra Mundial do mobiliário! Será que estou delirando? Não pode ser um sonho recorrente, noites a fio! Vou ter que sair da cama e ligar pra portaria toda noite porque o cidadão não tem o mínimo de bom senso pra respeitar o descanso alheio? — respondi, subindo o tom, em defesa da justiça universal.
O pobre síndico apenas balançou a cabeça, derrotado pela minha eloquência.
— Compreendo sua indignação, Sr. Levy. Mas sem provas…
— Não seja por isso… Vou gravar! O senhor terá a prova cabal de que seu condômino é, de fato, um arquiteto de interiores notívago, especializado em reformas performáticas às duas da manhã.
Missão: provar ao síndico que o prédio dependia de mim e que eu lutaria pelo meu direito sagrado ao sono.
Tática: preparei o celular na beirada da cabeceira. Coloquei o gravador no modo “Alta Fidelidade”, para não perder o timbre do sofrimento do meu teto. Ele seria minha testemunha silenciosa, minha prova irrefutável de que o 104 era habitado por um ser que desprezava as regras do condomínio e as leis da física.
Objetivo: hoje, o descaso do arrasto acaba!
Na manhã seguinte, ansioso pela comprovação da infração, abri o arquivo.
Cinco horas e doze minutos de gravação. Apertei o play, pronto para ouvir o roçado moveleiro da injustiça.
Mas o que emergiu do alto-falante não foi o som de um bloco maciço de madeira sendo arrastado.
Foi o som completo de um motor a diesel tentando dar partida no inverno.
Um som na ida e outro na volta. Uma sinfonia profunda que parecia usar minha garganta como tuba e meu tórax como subwoofer.
Um ronco.
Não o ronco do vizinho.
MEU RONTO!
Meu corpo estava, de fato, arrastando alguma coisa. Arrastando ar com a violência de um compressor pneumático.
Era o ronco da vovó Rosita.
Aquele que a Bába e eu ouvíamos na infância, quando os netos dormiam na sala, durante as férias. Não tinha espuminha 3M que bastasse.
O mesmo que minha mãe reproduzia, e que eu jurei não ter herdado.
De repente, como se eu tivesse acabado de descobrir que o céu era azul, a epifania: não era o 104 reorganizando a sala. Era o meu diafragma desorganizando a noite.
A barulheira intermitente era a minha própria herança maldita.
Entre um serrote e uma motosserra, segundos angustiantes de apneia — seguidos de um arfar dramático, como quem renasce de um afogamento… no próprio travesseiro.
Minha esposa, com aquele olhar de quem já sofreu anos com a minha negação, apenas sacramentou:
— Finalmente, você ouviu o vizinho — comentou, enquanto se arrumava para a academia — o “arrasto” que você escuta é só o eco da sua própria traqueia. Me ouça e não se arrependa.
(Caro leitor, essa história não acabou… 🫣)
O vizinho de cima, ao que tudo indica, segue uma rígida rotina de feng shui às 1h30 da manhã, movimentando um armário de cedro maciço, uma mesa de jantar de mogno e, no mínimo, doze cadeiras a cada 48 segundos.
O barulho de arrasto é o meu direito constitucional de dormir em paz sendo esmagado no assoalho.
Formalizei a reclamação por escrito, como manda o figurino da Guerra Fria Condominial.
Na tarde seguinte, o síndico bateu à minha porta. Aquele sujeito que, honestamente, parece ter feito um curso de mediação com pinguins, com especialização em araras. Veste a neutralidade como armadura, agarrado a imparcialidade — mesmo que o barulho seja um terremoto.
— Senhor Levy — começou ele, com a voz que tenta personificar a Paciência
— fui pessoalmente conversar com o morador do 104. Ele foi muito solícito, muito cordial.
Cruzei os braços, já esperando a negação.
— Claro que é solícito. O incomodado sou eu. E o que ele disse sobre a profanação do meu sono?
O síndico hesitante, como quem se prepara para citar um artigo obscuro da convenção.
— Ele assegurou que não há absolutamente ninguém acordado nesse horário e, portanto, não há móveis sendo movimentados.
— Como assim? Eu estou ouvindo a Terceira Guerra Mundial do mobiliário! Será que estou delirando? Não pode ser um sonho recorrente, noites a fio! Vou ter que sair da cama e ligar pra portaria toda noite porque o cidadão não tem o mínimo de bom senso pra respeitar o descanso alheio? — respondi, subindo o tom, em defesa da justiça universal.
O pobre síndico apenas balançou a cabeça, derrotado pela minha eloquência.
— Compreendo sua indignação, Sr. Levy. Mas sem provas…
— Não seja por isso… Vou gravar! O senhor terá a prova cabal de que seu condômino é, de fato, um arquiteto de interiores notívago, especializado em reformas performáticas às duas da manhã.
Missão: provar ao síndico que o prédio dependia de mim e que eu lutaria pelo meu direito sagrado ao sono.
Tática: preparei o celular na beirada da cabeceira. Coloquei o gravador no modo “Alta Fidelidade”, para não perder o timbre do sofrimento do meu teto. Ele seria minha testemunha silenciosa, minha prova irrefutável de que o 104 era habitado por um ser que desprezava as regras do condomínio e as leis da física.
Objetivo: hoje, o descaso do arrasto acaba!
Na manhã seguinte, ansioso pela comprovação da infração, abri o arquivo.
Cinco horas e doze minutos de gravação. Apertei o play, pronto para ouvir o roçado moveleiro da injustiça.
Mas o que emergiu do alto-falante não foi o som de um bloco maciço de madeira sendo arrastado.
Foi o som completo de um motor a diesel tentando dar partida no inverno.
Um som na ida e outro na volta. Uma sinfonia profunda que parecia usar minha garganta como tuba e meu tórax como subwoofer.
Um ronco.
Não o ronco do vizinho.
MEU RONTO!
Meu corpo estava, de fato, arrastando alguma coisa. Arrastando ar com a violência de um compressor pneumático.
Era o ronco da vovó Rosita.
Aquele que a Bába e eu ouvíamos na infância, quando os netos dormiam na sala, durante as férias. Não tinha espuminha 3M que bastasse.
O mesmo que minha mãe reproduzia, e que eu jurei não ter herdado.
De repente, como se eu tivesse acabado de descobrir que o céu era azul, a epifania: não era o 104 reorganizando a sala. Era o meu diafragma desorganizando a noite.
A barulheira intermitente era a minha própria herança maldita.
Entre um serrote e uma motosserra, segundos angustiantes de apneia — seguidos de um arfar dramático, como quem renasce de um afogamento… no próprio travesseiro.
Minha esposa, com aquele olhar de quem já sofreu anos com a minha negação, apenas sacramentou:
— Finalmente, você ouviu o vizinho — comentou, enquanto se arrumava para a academia — o “arrasto” que você escuta é só o eco da sua própria traqueia. Me ouça e não se arrependa.
(Caro leitor, essa história não acabou… 🫣)


