Cotidiano

Sacolão

– Senhora, com licença? – peço educadamente para a mulher que atravessou o carrinho no corredor. Ela está decidindo o que pegar na gôndola, esperando que o produto a seduza à la Washington Olivetto.
 
Pessoas indecisas precisam de lista de compras. Ou um psicólogo. 

Art. 1º, §1º, Inciso XVIII – “Não é pra decidir o que vai preparar no almoço quando está no mercado.”

Mas não começou aí…
 
Domingo de manhã. A luz do sol, em vez de ser um convite à paz, é apenas o holofote iluminando o palco do meu suplício: o Sacolão.
 
Mas esse não é qualquer final de semana. É o primeiro depois do pagamento. Significa que um milhão de pessoas lutarão desesperadamente pela maçã mais vermelha e a alface mais verde.
 
Saio de casa ciente que minha paciência será esticada como no desenho do Pateta na academia.
 
A epopeia começa no estacionamento. Quatro voltas pra encontrar uma vaga entre um carro e um pilar. A manobra foi tão milimétrica que o Waze aplaudiu. Entrego o carro ao destino, torcendo que os “pilotos só de carrinho de supermercado” não risquem o possante.
 
Eu não sei o motivo, mas a gente sempre entra devagar em restaurantes, mercados ou farmácias. Mas no sacolão sempre tem um repositor, inabalável e sem pressa, afunilando com um palete, o único acesso do público. Deve ser proposital, para que a pessoa pense bem antes de assumir a responsabilidade por qualquer dano emocional.
 
Para variar, meu carrinho puxa para a direita, chacoalha, faz barulho e a cada meio metro, dá um pulinho. Minha esposa nem precisa me procurar, é só ouvir a minha Harley-Davidson versão carrinho de compras.
 
Finalmente a senhora liberou o corredor.
 
A caminho da bancada da banana, me aproximo de pais constrangidos com o filho revoltado se debatendo no chão, fazendo manha. Ele exige o Kinder Ovo e não aceita a pêra.
É o tipo de cena de terror que faz qualquer adulto reavaliar o conceito de natalidade. Vermelhos de vergonha, os pais tentam convencer o menino de que banana também é gostoso. Os gritos agudos e o choro são tão altos que interrompem a conversa dos idosos.
 
Aqui deve ser a nova praça, porque os idosos vêm ao sacolão como quem passeia em Campos do Jordão. Andam devagar, comentam o preço da uva como se fosse a cotação do dólar e param em frente as gôndolas pra conversar sobre o colesterol e os netos.
 
Preciso de muçarela.
 
No meio do percurso, sou caçado. Uma moça de sorriso forçado me aborda: 

– Senhor, experimente a nova geleia de cebola roxa com cabernet!

– Não, obrigado.

– Mas ela é feita com produtos orgânicos – insiste a promotora de venda decidida e me enfiar goela abaixo. 
 
Tento escapar, mas sou encurralado pelo promotor do cartão fidelidade que me oferece pela vigésima vez vantagens que nunca usarei.
 
Na seção de frios, uma única atendente. A fila está grande e o cliente da vez está debatendo com ela a espessura certa da fatia. A mulher atrás de mim resolveu me passar a receita do almoço inteiro, como se eu tivesse perguntado alguma coisa. 
 
Não posso esquecer a Coca-Cola.

Alguém limpou esse chão com o método “passa o pano e reza”.
Cada passo é um desafio de tração no grude. Agora o carrinho e eu fazemos barulho.
 
Eu queria ver nas câmeras quem desiste da compra e abandona um frango fresco na seção do sabão em pó. Eu não sei se é preguiça ou falta de vergonha na cara. Eu fazia pagar e indenizar com serviço voluntário por uma semana, repondo os produtos que clientes sem noção deixam fora do lugar.
 
– Mor, o que tá faltando? – pergunto com um fio de esperança…

– Os legumes – ela responde.
 
Ninguém quer ser o otário que levou a fruta azeda ou o legume com depressão.
As pessoas pegam, giram, apertam, cheiram… e fazem praticamente uma tomografia computadorizada do abacate. Tem gente que dá três voltas na bancada só pra escolher uma manga.
 
Frequentemente tem uma mexerica aberta para degustação. Qual a chance das outras duas mil na bancada terem o mesmo gosto? A mesma de acreditar que a semana será diferente porque você tomou água com limão na segunda-feira.

Um sujeito examina a berinjela com a seriedade de um cientista e uma senhora sacode um brócolis como quem tenta acordar um gato dormindo lá dentro.

E sempre tem aquele idoso que não veio comprar nada, mas cheira cada tomate como se estivesse avaliando a qualidade do solo de um vinhedo francês. Suspira dramaticamente e os devolve à bancada balançando a cabeça: “No meu tempo é que tinha tomate bom.”
 
Acabou! Vamos pra fila do caixaaa…

A fila da água no deserto deve ser mais curta!
 
A cliente que está passando as compras está com o celular entre o ombro e o ouvido, comendo um biscoito de polvilho que abriu antes de pagar e só tem uma mão disponível para esvaziar o carrinho lotado. 
 
Melhor eu olhar para o outro lado. Vai dar tempo de reavaliar as promessas de final de ano, filosofar sobre a vida e a organizar a dieta da semana.
 
Percebo um homem conversando com uma mulher no corredor dos doces. Acho que deve ser esposa dele. Parece que ele veio a contragosto. Talvez tenha cancelado o futebol de domingo. Agora, ele está levando uma bronca daquelas. Será que foi por ter escolhido a marca errada do papel higiênico?
 
– Próximo! – ouço a palavra como “É TEEETRAAA!”.
 
Passando as compras o inevitável acontece: o preço do tomate está diferente do que da plaquinha.
Suspeito que aquele idoso… deixa pra lá.
 A moça do caixa chama o supervisor, que some por três minutos eternos — e volta com a aquela cara de quem queria estar em qualquer outro lugar, menos trabalhando no domingo.
 
Saio do sacolão exausto, empurrando o carrinho trêmulo até o carro, desviando de outros carrinhos abandonados como se fossem destroços de guerra.
 
Ainda são 9h da manhã. 
Tenho uma academia lotada pra enfrentar. 
Mas essa é outra crônica.

Um comentário

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre As Crônicas de Levy Coimbra

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo