Comportamento,  Cotidiano

Malditos Três Pontinhos

O WhatsApp inventou uma tortura psicológica: os malditos três pontinhos.
Eles aparecem e somem, aparecem de novo, somem outra vez.
Dançam, piscam, se confraternizam.

Me pego contando um, dois, três – espaço de tempo – um, dois, três – espaço de tempo.
Um código Morse que só a deep web entende.

Dizem que sempre tem uma big tech besbilhotando a câmera o microfone do nosso celular.
Se é teoria da conspiração ou não, aí vai meu recado: “Eu odeio os três pontinhos!”.

Nesse vai e vem, já deu tempo de revisar os e-mails atrasados, lembrar de dívidas esquecidas, planejar a lista do mercado e até prometer que, se a resposta vier, nunca mais vou reclamar do tédio.

Tá bom! Vamos ver as últimas notícias… Tudo velho.

Instagram tem alguma notificação? Não. Só aquelas sugestões questionáveis de pessoas para seguir.

Facebook. Porque eu ainda tenho Facebook?

Um, dois, três – espaço de tempo – um, dois, três – espaço de tempo.

É como se fosse a versão digital do famigerado: “Aguarde na linha, sua ligação é muito importante para nós”.
Só que, pelo menos, tínhamos a musiquinha.
No “whats”, só silêncio e ansiedade.

 “Digitando…” – apaga – “Digitando…” – apaga – “Digitando…”.
Se está demorando tanto, é porque vem algo incrível.
Uma revelação, uma inspiração, algo que mudará minha a vida…
Um tratado épico que justifique a eternidade da espera.
 
Um, dois, três – espaço de tempo – um, dois, três – espaço de tempo.

Mando o emoji 👀
Não quero pressionar a pessoa.
Só quero a resposta.
Não deve ser tão difícil!

Ela deve estar pensando cinco vezes antes de escrever.
Escolhendo palavra por palavra.
Minha expectativa aumenta.

Um, dois, três – espaço de tempo – parou?  – espaço de tempo.

A resposta deve estar descendo do satélite, passando pelos cabos submarinos, correndo pelos postes e finalmente…

Um, dois, três – espaço de tempo – um, dois, três – espaço de tempo. 😒

Então… No twitter, quer dizer “X”, qual a nova trend?

Li numa matéria em um site de notícia: “A subcelebridade tuitou no ‘X’…”.
Chamar a postagem de “tuíte” não é um contrassenso?
Aliás, “X” não é nome nem de carro.
“X” é só a infame variável da detestável equação do sétimo ano do fundamental.
Irmão do “Y” e primo da raíz quadrada. Não quero lembrar de Bhaskara.

Um, dois, três – espaço de tempo – um, dois, três – espaço de tempo – espaço de tempo.

Chegooou!!

“OK.”

Oi? Só isso? Mais nada piscando?
O que você estava escrevendo? Desistiu?

É nesse momento que você entende que foi torturado.
O vácuo. Olha em volta e só vê a luz sendo sugada pelo buraco negro do “OK”.
Eu nutri a esperança de uma resposta vinda de um oráculo superior.

Os três pontinhos não são promessa de nada.
São só uma forma educada — e sádica — de dizer: “Aguarde na linha… mas talvez eu nem esteja a fim de falar com você”.

O WhatsApp inventou a única tortura em que a vítima quer mais.

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