Cotidiano,  Memórias

E Se Um Anjinho Passar?

“Não fala isso! E se passar um anjinho e falar amém?”
Era assim que minha mãe me ensinava a não desejar coisas ruins pra mim ou para outras pessoas.
 
Esse “provérbio” me acompanha até hoje.
É primo daquele ditado: “Não ‘gospe’ pra cima que cai na sua cara.”
“Gospe” mesmo, porque eu não sabia o que era cuspir.
São pérolas que grudam na memória.
 
O detalhe é que ela não me avisou que esses ditados valiam para situações que não seriam consideradas ruins.
 
Anos 2000. Milênio novo, vida nova, recém-casado.
Todo programa é bom quando temos saúde, disposição e boa companhia.
Resolvemos acampar nas férias. Nessa época eu ainda tinha costas para isso.
 
Um lugar sossegado, com sombra e até algumas palmeiras.
Na primeira noite fomos acordados por uma revoada de maritacas que pousaram na palmeira acima da nossa barraca.
Saímos para ver as esmeraldas plumadas.

– Que lindinhas! – minha esposa disse encantada – Olha como elas “conversam”? Parece que estão felizes, namorando! Seria tão bom acordar com elas todos os dias…
 
Caro leitor, guarde esse desejo.
 
Antes de levantar o acampamento, já sentia ranço pelos mini papagaios ruidosos. Terminada as férias, voltamos à nossa rotina.
 
Num final de semana resolvemos acampar novamente.

– Aonde vamos? – ela perguntou.

– Para um lugar diferente – respondi com toda a intenção de não voltar ao comício matinal das maritacas.

Cidade do interior. Acampamento montado. Primeira noite.
Acordamos com o despertador Turdus rufiventris, o queridinho do Brasil, o sabiá-laranjeira. Eu jurava que o nome tinha a ver com a árvore. Mas não havia laranjeiras por perto.

– Que gostoso ouvir o passarinho tão feliz logo de manhã! Não seria legal ouvirmos isso em casa? – ela suspirou.
 
Engoli a seco. Não queria estragar o momento. Mas disfarçadamente olhei para os lados pra saber se tinha um anjinho por perto.
 
Alguns minutos depois, um galo anunciou a chegada do dia.
Eu já estava preparado.

– Um galo! – ela exclamou, surpresa.

Fiz uma oração silenciosa, petrificado na cama:
“Por favor anjinho, desconsidera.”
 
Dois anos depois, nos mudamos para o coração de São Paulo, capital.

Descobri que sabiá-laranjeira tem esse nome por causa da cor do peito e que ele canta muito mais cedo na cidade. O coitado se esgoela desesperadamente nos jardins e praças, antes que o barulho dos carros comece.

Na fazendinha da escola infantil próxima, tem um galo confuso. Ele canta a madrugada inteira, desorientado pelas luzes da cidade.

E as maritacas? Fofocam na janela do quarto toda manhã.
 
O anjinho escutou tudo.

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