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Silêncio

Eu comprei silêncio.
Não aquele silêncio coach — “dez minutos de paz, respira fundo, limpa a mente”.
Eu precisava de silêncio de verdade. Sem notificações, vizinhos, motos, buzinas, sirenes, obras.
Sem São Paulo.

Aluguei uma microcasa no interior.
Um lugar escondido dentro de uma fazenda, como se o mundo tivesse sido deixado do lado de fora por esquecimento.
Chave na porta, cama king, churrasqueira no jeito.
Os únicos seres vivos eram minha esposa, três galinhas-da-angola, dois galos pernudos e meia dúzia de galinhas comuns.
Mais os passarinhos e insetos que cumprem contrato vitalício com o bioma.

Choveu bastante.
Eu esperava ouvir apenas o barulho do meu cérebro reduzindo a marcha, mas a chuva fez o serviço antes.
A queda d’água ali perto virou ruído branco.
Aumentava ou diminuía conforme o humor do céu.
Um volume que não dependia de mim — e isso já era um alívio.

Foi então que percebi: vivo armado contra o mundo.
Meu corpo estranhou descansar.
Minha mente perguntou se estava tudo bem.
Meu ouvido, desacostumado, começou a procurar barulho, como um gato olhando para a parede.

Quando a chuva deu trégua, passei a identificar os sons daquele silêncio:
o vento passando entre as árvores, as folhas conversando entre si, um grilo claramente contratado para a trilha sonora e o estalo educado da madeira queimando.

De vez em quando, um papagaio assoviava.
Demoramos para entender que não era o caseiro.
À noite, vacas mugiam ao longe.
Ruídos que não pediam resposta. 
E, por isso mesmo, confortavam.

Ali, o barulho existe, mas não agride.
Não invade. Apenas acontece.
É um som que não pede nada de mim.

Na cidade, convivo com um desespero barulhento que se disfarça de normalidade.
Ela me condicionou a estar sempre tenso, atento, disponível.
O ruído constante treinou meu corpo a se defender até quando não há ataque.
Aprendi a ligar o modo alerta e esqueci onde fica o botão de desligar.

Minha esposa e eu inauguramos o fim de semana com uma prática ancestral da geração mentalmente exausta: bed rotting.
Basicamente, dissolver-se na cama e aceitar que, na horizontal, você é uma versão mais funcional de si mesmo.
Dois adultos pagando para não fazer absolutamente nada — uma terapia subestimada.

Quando cansamos de deitar (sim, isso acontece), migramos para atividades de altíssima complexidade: abrir a porta e as janelas, fechar a porta e as janelas, observar uma borboleta e discutir se era borboleta mesmo ou só uma folha com ambição de voo, tentar descobrir qual era a rolinha macho entre cinco idênticas, questionar por que aquele galo era tão pernudo e se existe, afinal, galo-da-angola.

Pela primeira vez em meses, meu cérebro não estava em guerra com o mundo exterior.
A verdade é menos bonita do que parece: eu não queria só descanso.
Eu queria fuga.

O silêncio que comprei não foi turismo, foi autocuidado.
Não voltei renovado, iluminado ou transformado.
Voltei consciente de que preciso repetir essa fuga como quem toma antibiótico.

Se não consigo ganhar a vida num lugar silencioso, que ao menos eu saiba reconhecer o grito da minha mente e correr, sempre que possível, para ouvir… o nada.

Nada é caro.
Mas vale cada centavo.

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