Cotidiano

Scroll Up

Quero deixar registrado, por meio desta crônica aberta, o meu protesto formal contra o scroll up.
 
Houve um tempo em que preencher um cadastro tinha o tom de uma conversa. Alguém perguntava, e eu respondia, e a vida seguia com relativa dignidade. Depois vieram os formulários de papel, que exigiam um certo compromisso com a caligrafia.
 
De repente, nasceram os formulários digitais.
 
No começo, eles moravam nos computadores da lan house ou no PC de casa, quando ainda havia a ilusão de que tecnologia era algo que eu visitava. Em algum momento, sem aviso prévio, esses formulários mudaram-se definitivamente para o meu bolso.
 
Nome, endereço, documento… data de nascimento.
 
Até dias atrás, encontrar o meu ano de nascimento era um gesto quase elegante. Bastava um ou dois giros da rodinha do aplicativo. Um toque leve. Um flerte com a tecnologia. Um beijo tímido na maioridade.
 
Hoje, procurar o ano de nascimento virou um exercício de arqueologia pessoal.
O scroll up transformou-se num polígrafo disfarçado no mundo digital.
 
Eu começo a rolar: 2026, 2025, 2024… e o dedo ganha velocidade, como quem tenta fugir depois de uma gafe constrangedora.
Chega 2000, o marco zero de uma geração que já nasceu com o polegar opositor perfeitamente treinado para telas.
A partir daí, a rolagem deixa de ser navegação e passa a ser expedição paleolítica.
Você atravessa os anos 90.
Depois os 80.
Vem aquela sensação que, a qualquer momento, o app vai perguntar se eu conheci Dom Pedro I pessoalmente.
 
Não é apenas exposição gratuita.
É um atestado de obsolescência programada.
 
Acho que gasto mais tempo rolando um calendário de cadastro do que fazendo doomscrolling de reels no Instagram. Preciso saltar blocos e blocos de números até que a minha safra, finalmente, apareça  como um fóssil catalogado.
Para quem me vê fazendo isso, acha que estou dando corda no celular.
 
Pode parecer exagero. Mas cada centímetro de tela percorrido para cima é um lembrete silencioso de que a minha geração está ficando, literalmente, para trás na rolagem da História.
 
Nem lembro mais pra que era o cadastro.
Deve ser a idade.

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