Ansiedade
Eu não sabia que era ansioso até descobrir como é viver sem isso.
É como se alguém tivesse tirado o modo “vibrar” da alma para eu perceber que aquilo não era normal.
Passei anos achando que “borboletas no estômago” era só um jeito poético de descrever o pânico interno.
Que “fio na espinha” era parte do sistema operacional humano.
Que “pescoço tremendo” era normal. Tipo um recurso embutido, igual vibração de celular.
A vida seguia, e eu lá, um protagonista trêmulo tentando interpretar sinais do Universo enquanto meus olhos pareciam um GIF em velocidade 2x.
Sudorese? Parte do pacote.
Vergonha de público? Meu cotidiano.
Conflitos? De preferência que fossem resolvidos por terceiros, com mediação internacional, ata notarial, quórum de testemunhas, um plebiscito e uma perícia técnica, só pra garantir.
As situações gatilho são “poucas”:
“Eu vou ter que falar para o seu pai” — o processo perdido, sem mais recursos ao STF.
Nota baixa com assinatura do responsável — acho que até meu anjo da guarda ficava nervoso.
Professora escrevendo na agenda — equivalente infantil de receber uma intimação da Interpol com cópia para a ONU.
Chefe ligando fora do horário — antes de atender, eu já tinha deixado um testamento mental, revisado e pedido perdão dos meus pecados, escolhido a música do meu velório e aceito minha sentença como quem já soubesse do veredito. Minha vida passava pela minha mente em slow motion, embalada por um coral dramático.
E o clássico: “Passa na minha sala depois, precisamos conversar”. Isso já derrubou minha pressão mais vezes do que minhas gatas derrubam coisas no chão.
Meu avô sempre dizia que tinha dificuldade com o versículo:
“Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus.” Rm 8:28.
Honesto, né? Mas a pergunta do estressado sobre isso é: “Como assim?”
Para quem é ansioso, confiar e esperar a providência divina é quase um triatlo emocional.
Mesmo com Deus dizendo “Eu cuido”, a cabeça responde:
“Sim, Senhor, mas… e SE…” – abrem-se 48 abas mentais como um Chrome viciado.
E olha que Ele já deu exemplo até com passarinho, pintinho e flor…
Se Jesus ensinasse isso hoje, seria num simples PowerPoint com o clipart de um pardal no 1º slide, uma galinha com sua ninhada do 2º, um lírio no 3º e aquele slide final que diz “Se até eles, imagina você”.
Mas a fé de quem sofre ansiedade é tipo trânsito na marginal em São Paulo: anda, para, anda mais um pouco, para por mais tempo, desliga o carro, o Waze recalcula o caminho a cada três minutos, mas no fim… chega.
E aí, um dia, por obra divina e/ou médica, a gente descobre como é viver sem ansiedade.
Quando você percebe que as situações que antes te derretiam não carregam uma ameaça fatal, lembra aquelas promoções que parecem golpe — você desconfia, revisa, confirma, desconfia de novo só para manter a tradição, porque a criatura ansiosa não sabe viver sem uma auditoria emocional.
Precisa aprender a viver sem o velho alerta.
É quase estranho sentir calma.
Quase suspeito.
Será que é ansiedade de não sentir ansiedade?
A sensação é de que te deram um desconto vitalício na catástrofe — tipo um cupom de paz que você não sabia que existia.
Você olha para os conhecidos gatilho que te definhavam e pensa: “Ué, o alarme de incêndio parou? As paredes não estão caindo?”
Você analisa e descobre que o mundo não era, afinal, um campo minado. Era só o chão.
E que aquele turbilhão interno ensurdecedor e exaustivo, nunca foi o padrão humano — era só o CID F41.1 fazendo hora extra na minha alma, sem receber adicional noturno.
Então vem a pergunta mais dura, porém libertadora:
Isso tudo era ansiedade?
Sim.
E não é pouca coisa.
E não é fácil.
Mas se você sente tudo isso, e ainda assim segue trabalhando, criando, vivendo, tentando, respirando…
Então você está fazendo mais do que imagina.
E está indo bem.
Está tudo bem, Levy.


