Performático
Acordei às 5h07 — não porque meu corpo pediu, mas porque o algoritmo do meu anel inteligente decidiu que aquele era o pico da minha janela de recuperação profunda.
Antes mesmo de dar bom dia ao sol (que, aliás, eu precisava encarar por exatos dez minutos para regular meu ciclo circadiano), eu já estava diante de um copo de chá verde com sal rosa do Himalaia e limão espremido, tentando convencer minhas papilas gustativas de que aquilo era biohacking e não uma bebida ruim.
O objetivo do dia é claro: otimizar cada segundo.
Eu não vou apenas viver; eu vou performar.
Viver na velocidade 2x com a eficiência de um Power BI com IA e a alma de um super processador.
Cheguei na cozinha cronometrando meus macros.
Minha esposa comia um pão francês com manteiga — um comportamento que, no meu estado mental atual, equivale a um crime contra o patrimônio biológico. O glúten é o “vão livre” para o declínio cognitivo.
Olhei com ar de reprovação, mas ela apenas me devolveu o olhar com aquela paciência de quem convive com um maluco e continuou mastigando.
Decidi então otimizar o diálogo. Em vez de perguntar como ela tinha dormido, perguntei:
– Amor, em uma escala de 0 a 10, como está seu nível de cortisol matinal? – esperava um feedback rápido.
Ela não respondeu com números, mas com um silêncio que, se fosse transformado em dados, indicaria um risco iminente de divórcio.
Enquanto isso, eu colocava pra dentro – sem respirar – minha super vitamina de cor verde-pântano, composta por 42 superalimentos prensados a frio, whey e queratina, que tinha gosto de gramado de estádio de futebol após um jogo na chuva.
Eu estava nutrido, otimizado e tecnicamente me sentindo superior aos demais mortais. Mas comeria uma dúzia de barrinhas de proteína se minha planilha de metas não estivesse me vigiando pelo smartwatch, só pra tirar o gosto da vitamina.
Às 7h30, eu já estava na academia. Mas não para malhar, termo que hoje soa tão arcaico quanto usar disquete; eu estava lá para uma sessão de body-data-sync.
Enquanto meus bíceps sofriam, meus ouvidos eram bombardeados por um podcast sobre investimentos em criptomoedas de Marte, acelerado em 2.5x. Eu não entendia metade das palavras, mas o cérebro estava processando dados enquanto perdia calorias.
“Meti o shape”, hora do banho. Mas não qualquer banho.
A regra da otimização é clara: se a água não estiver fria o suficiente para causar uma leve hipotermia e um questionamento existencial, você não está despertando sua dopamina basal.
Tremendo como uma folha de papel ao vento, tentava mentalizar minhas metas para o terceiro trimestre de 2028, sob um jato de água gelada.
Saí do chuveiro azul de frio, mas com a consciência tranquila: eu tinha economizado quatro minutos de aquecimento elétrico e, teoricamente, aumentado minha imunidade em 12%.
Ou talvez tenha sido apenas um resfriado que começou a brotar ali mesmo, mas meu aplicativo de saúde ainda não tinha processado o espirro
Saí de casa às 9h02, com um atraso de 120 segundos que me custou uma micro crise de ansiedade e a subsequente frustração.
Entrei no carro e, obviamente, não liguei o rádio. Música é entretenimento, e entretenimento é o cemitério da produtividade. Dei o play em um audiobook sobre “Como ler 500 páginas por hora usando apenas o hemisfério direito do cérebro”.
Enquanto o trânsito de São Paulo se transformava naquele estacionamento a céu aberto que todos amamos odiar, eu praticava exercícios isométricos no volante para não desperdiçar o tempo sentado. A cada freada, eu contraía o abdômen; a cada buzina de motoqueiro, eu fazia um ciclo de respiração quadrada para manter meu batimento cardíaco em exatos 65 bpm.
Eu era a única pessoa naquele engarrafamento que estava “em processo de expansão de capacidade”.
No trabalho, a meta era a “Ultra Focalização”.
Ignorei o breakfast da firma (muito açúcar, pouca ética).
Coloquei meus fones de ouvido com cancelamento de ruído e um som de “ruído marrom” — que, segundo um artigo que ouvi enquanto descia a escada do prédio de casa, aumenta a conexão sináptica em 14,3%.
Instalei um software que bloqueia o mouse se eu ficar mais de cinco segundos olhando para uma aba de notícias.
Meus colegas passavam por mim como vultos borrados. O João tentou me contar uma piada, mas eu apenas apontei para o meu cronômetro de Pomodoro que gritava em contagem regressiva.
Eu não tinha tempo para o humor; eu tinha metas.
Eu era uma máquina de entregar demandas, um titã da eficiência, um herói do checklist.
Até que…
Meu intestino resolveu que a vitamina verde-pântano do café da manhã não havia cumprido papel nenhum e se recusava a seguir participando do experimento performático.
Meu corpo pediu para ir ao banheiro.
Não veio acompanhado de métrica ou gráfico.
Não tinha benchmark.
Foi apenas um alerta biológico.
Tentei controlar por alguns minutos — estava no meio de um bloco de hiperfoco.
O aplicativo ainda não tinha autorizado a pausa.
Mas o corpo, que não aceita transferências por AirDrop, insistiu.
Levantei com dignidade e caminhei calmamente em direção ao banheiro.
Sem chamar a atenção dos colegas.
No vidro no corredor, tentei identificar algum sinal visível de evolução: uma aura performática ou talvez um brilho sutil de alta performance ao redor do crânio.
Não tive tempo de concluir a análise.
A natureza interrompeu o brainstorming.
Corri!
A super vitamina decidiu que não criaria raízes.
Saiu do meu corpo com a mesma pressa com que entrou.
Voltei para minha sala, esgotado, levemente desidratado e filosoficamente derrotado.
Sentei.
O Pomodoro zerado;
O ruído marrom parado;
O mouse bloqueado;
O monitor apagado.
E eu…
Pra quê?
Antes mesmo de dar bom dia ao sol (que, aliás, eu precisava encarar por exatos dez minutos para regular meu ciclo circadiano), eu já estava diante de um copo de chá verde com sal rosa do Himalaia e limão espremido, tentando convencer minhas papilas gustativas de que aquilo era biohacking e não uma bebida ruim.
O objetivo do dia é claro: otimizar cada segundo.
Eu não vou apenas viver; eu vou performar.
Viver na velocidade 2x com a eficiência de um Power BI com IA e a alma de um super processador.
Cheguei na cozinha cronometrando meus macros.
Minha esposa comia um pão francês com manteiga — um comportamento que, no meu estado mental atual, equivale a um crime contra o patrimônio biológico. O glúten é o “vão livre” para o declínio cognitivo.
Olhei com ar de reprovação, mas ela apenas me devolveu o olhar com aquela paciência de quem convive com um maluco e continuou mastigando.
Decidi então otimizar o diálogo. Em vez de perguntar como ela tinha dormido, perguntei:
– Amor, em uma escala de 0 a 10, como está seu nível de cortisol matinal? – esperava um feedback rápido.
Ela não respondeu com números, mas com um silêncio que, se fosse transformado em dados, indicaria um risco iminente de divórcio.
Enquanto isso, eu colocava pra dentro – sem respirar – minha super vitamina de cor verde-pântano, composta por 42 superalimentos prensados a frio, whey e queratina, que tinha gosto de gramado de estádio de futebol após um jogo na chuva.
Eu estava nutrido, otimizado e tecnicamente me sentindo superior aos demais mortais. Mas comeria uma dúzia de barrinhas de proteína se minha planilha de metas não estivesse me vigiando pelo smartwatch, só pra tirar o gosto da vitamina.
Às 7h30, eu já estava na academia. Mas não para malhar, termo que hoje soa tão arcaico quanto usar disquete; eu estava lá para uma sessão de body-data-sync.
Enquanto meus bíceps sofriam, meus ouvidos eram bombardeados por um podcast sobre investimentos em criptomoedas de Marte, acelerado em 2.5x. Eu não entendia metade das palavras, mas o cérebro estava processando dados enquanto perdia calorias.
“Meti o shape”, hora do banho. Mas não qualquer banho.
A regra da otimização é clara: se a água não estiver fria o suficiente para causar uma leve hipotermia e um questionamento existencial, você não está despertando sua dopamina basal.
Tremendo como uma folha de papel ao vento, tentava mentalizar minhas metas para o terceiro trimestre de 2028, sob um jato de água gelada.
Saí do chuveiro azul de frio, mas com a consciência tranquila: eu tinha economizado quatro minutos de aquecimento elétrico e, teoricamente, aumentado minha imunidade em 12%.
Ou talvez tenha sido apenas um resfriado que começou a brotar ali mesmo, mas meu aplicativo de saúde ainda não tinha processado o espirro
Saí de casa às 9h02, com um atraso de 120 segundos que me custou uma micro crise de ansiedade e a subsequente frustração.
Entrei no carro e, obviamente, não liguei o rádio. Música é entretenimento, e entretenimento é o cemitério da produtividade. Dei o play em um audiobook sobre “Como ler 500 páginas por hora usando apenas o hemisfério direito do cérebro”.
Enquanto o trânsito de São Paulo se transformava naquele estacionamento a céu aberto que todos amamos odiar, eu praticava exercícios isométricos no volante para não desperdiçar o tempo sentado. A cada freada, eu contraía o abdômen; a cada buzina de motoqueiro, eu fazia um ciclo de respiração quadrada para manter meu batimento cardíaco em exatos 65 bpm.
Eu era a única pessoa naquele engarrafamento que estava “em processo de expansão de capacidade”.
No trabalho, a meta era a “Ultra Focalização”.
Ignorei o breakfast da firma (muito açúcar, pouca ética).
Coloquei meus fones de ouvido com cancelamento de ruído e um som de “ruído marrom” — que, segundo um artigo que ouvi enquanto descia a escada do prédio de casa, aumenta a conexão sináptica em 14,3%.
Instalei um software que bloqueia o mouse se eu ficar mais de cinco segundos olhando para uma aba de notícias.
Meus colegas passavam por mim como vultos borrados. O João tentou me contar uma piada, mas eu apenas apontei para o meu cronômetro de Pomodoro que gritava em contagem regressiva.
Eu não tinha tempo para o humor; eu tinha metas.
Eu era uma máquina de entregar demandas, um titã da eficiência, um herói do checklist.
Até que…
Meu intestino resolveu que a vitamina verde-pântano do café da manhã não havia cumprido papel nenhum e se recusava a seguir participando do experimento performático.
Meu corpo pediu para ir ao banheiro.
Não veio acompanhado de métrica ou gráfico.
Não tinha benchmark.
Foi apenas um alerta biológico.
Tentei controlar por alguns minutos — estava no meio de um bloco de hiperfoco.
O aplicativo ainda não tinha autorizado a pausa.
Mas o corpo, que não aceita transferências por AirDrop, insistiu.
Levantei com dignidade e caminhei calmamente em direção ao banheiro.
Sem chamar a atenção dos colegas.
No vidro no corredor, tentei identificar algum sinal visível de evolução: uma aura performática ou talvez um brilho sutil de alta performance ao redor do crânio.
Não tive tempo de concluir a análise.
A natureza interrompeu o brainstorming.
Corri!
A super vitamina decidiu que não criaria raízes.
Saiu do meu corpo com a mesma pressa com que entrou.
Voltei para minha sala, esgotado, levemente desidratado e filosoficamente derrotado.
Sentei.
O Pomodoro zerado;
O ruído marrom parado;
O mouse bloqueado;
O monitor apagado.
E eu…
Pra quê?


