Cotidiano,  Pets

Gravidade

Eu descia um rio morno.
Sem esforço, sem boia, deixando a correnteza decidir o percurso.

Não era raso, nem fundo.
Não dava pé, mas também não dava medo.
Não era metáfora, retiro espiritual nem crise de meia-idade — era só um rio mesmo.
Como o rio quente de Goiás.
De vez em quando, eu sentia uma pedra ralando meu pé com delicadeza. Um obstáculo gentil. Como se fossem aveludadas.

De repente, cheguei num precipício. O que deveria ser dramático foi agradável.
A corrente me conduziu como colo de mãe para a borda de uma linda cachoeira.
Ela fluía suave como champagne, formando uma piscina natural.

Na foz do rio que seguia tranquilo, eu vi uma praia azul turquesa, digna de comercial da CVC. Queria chegar nela.

Como o Coyote do Looney Tunes — mas sem cair — eu percebo que fiz um acordo com as leis da física e desbloqueei o modo passarinho.
Eu sempre quis fazer isso.
Tento acrobacias e loops com sucesso.
Sinto que sou mais leve que o pappus do dente-de-leão.

Até que eu sinto algo áspero na minha perna.
O céu não costuma ter textura.

Em seguida uma dor.
Mas uma dor no joelho num voo parabólico não combina com narrativa épica.

Sinto choques nos braços e mãos.
A praia sumiu.
A leveza começou a falhar.
O ar ficou pesado.
Eu fiquei pesado.
Algo peludo encostou em mim.

Alguém mais comprometida com a realidade que eu, se espreguiça com meio corpo sobre mim.

Nina.

O despertador vem cheirar meu rosto de mansinho, só para confirmar se já voltei da Matrix.

Devagar, o cérebro lembra dos boletos, das decisões, das pequenas preocupações que chegam em grupo.
O corpo ganha vida novamente.

A realidade revela que o travesseiro de corpo fugiu e dormi com um joelho prensando o outro, num ângulo ilegal para a biomecânica humana.

Eu dormi muito torto e com a Shadow no meu peito.
 
Talvez eu não tenha mais idade para comer salgadinhos à noite.
 
 

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