Comportamento,  Memórias,  Pensamentos

Não me Pergunte

Meu avô era vendedor por vocação, pescador por teimosia e missionário por convicção. 
Ele usava um boné com a frase bordada: “Não me pergunte.” 
Não era ironia – era aviso. Um antivírus contra a curiosidade alheia.

Quando alguém ignorava o capacete a prova de curioso e perguntava:

 — Olá irmão Daniel. Como vão as coisas? 

Ele respondia:

— Melhor que a gente merece. 

Era o jeito dele de dizer: “Se for por educação, não precisa. Se for só curiosidade, menos ainda.” 

Tem pergunta que acolhe e tem pergunta que invade. 
Tem pergunta que é só espionagem emocional, uma verdadeira auditoria de vínculos – dedo-duro disfarçado.

Hoje, parece que perguntar virou tática de afeto. Uma incursão dirigida no particular do outro. Quanto mais íntima a pergunta, mais próxima a relação. 

Tem gente que não quer conhecer você, mas sobre você. Acham que intimidade é abrir gaveta alheia e revirar as meias. Perguntar virou esporte radical: quanto mais fundo, mais pontos.

A curiosidade é um app sádico: coleta, compartilha e ainda pede atualização. Aí vem a notificação: “Fulano está curioso sobre sua vida. Deseja permitir acesso?”

A curiosidade sem ética não é afeto — é coleta de dados pra reality show da vida alheia.

Tem gente que não quer te conhecer, relacionar, compreender — quer cavar.
E cava com sorriso, dizendo: “Tamo junto.”

“Junto”, nada. É mineração de dados afetivos.

E dado afetivo, fora de contexto, vira munição pra rodinha da fofoca.

Para se ter uma amizade, parece que a regra é um contrato: “Se não compartilhar tudo, será visto como má vontade.”

 Seu Daniel não era letrado, mas tinha a sabedoria de uma vida direcionada com Bíblia. 
Usava uma régua invisível pra medir perguntas:

Pra quê? 
Pra quem? 
Pra quê tudo isso, minha filha? 

Se não passasse na régua, ele sorria e mudava de assunto.

Meu avô não conhecia o termo “ética da curiosidade”, mas já praticava.
Escutava sem fuçar, sem exigir recibo emocional.
Ele só perguntava o que podia carregar. 

Não fazia pergunta que pesasse mais do que a amizade aguentava. Nem upgrade de segredo para notícia quente. 
O que entrava pelo ouvido não chegava na UFA – União dos Fofoqueiros Anônimos.
Era capaz de ouvir uma história inteira sem fazer a pergunta que todo mundo queria fazer.
Não porque não tivesse curiosidade — mas porque tinha curiosidade com freio.

Quando alguém me pergunta algo que entra no território da bisbilhotice, eu lembro do boné do meu avô… 

Que vontade de abrir a camisa como o Superman e revelar uma camiseta com “Não é da sua conta”.
 
Na época do sábio Daniel, não se falava em saúde emocional. Hoje, é coisa de feed. A pessoa grava, posta e ainda faz stories chorando. Posta até o café da manhã e depois chora por privacidade. 

Não pergunte minha opinião.

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