Memórias,  Pensamentos

Telefônica

– Vamos para a “Telefônica”? – convidava meu vô aos netos.

Esse era um ritual da sexta-feira, durante as férias de verão em Peruíbe.
Sexta-feira era o dia de falarmos com nossos pais que ficaram trabalhando onde morávamos.

E porque ir a algum lugar?

Porque entre Graham Bell – ou seja lá quem for que inventou o telefone – e o celular, falar ao telefone confortavelmente na poltrona destinada para isso, era mais caro do que ter um iPhone.

Não é à toa [caros jovens leitores] que se diz “telefone fixo”, quando o aparelho precisava estar ligado a uma tomada específica na parede.
Assim era a vida de quem queria se comunicar “ao vivo” com alguém.

Também tinha a carta, mas e-mail fica para outra crônica.
 
Os prédios da antiga Telesp eram o coração da comunicação da cidade. Era dali que saiam os “alôs”, os “mãe, tô bem”, os “te amo” e os “tô com saudade”.
 
Engana-se que a “Telefônica da praia” era só um prédio público.
Ela servia de referência de localização para os passeios de bicicleta ou as aventuras das férias.
Ao ver a torre – antena para os técnicos – a gente sabia que nossa casa estava naquela direção. Se a torre estava pequena, estávamos em apuros, o que não era incomum.
Quando íamos na Telefônica na sexta-feira, comprávamos ficha para usarmos nos orelhões até “cair a ficha”. Expressão que hoje precisa de explicação.
 
Monumentos de um passado não tão distante, parecem cenário de filme pós-apocalíptico: fachadas terracota escurecidas pelo tempo, colunas e lajes aparentes de concreto, antenas no teto, nenhuma alma viva entrando ou saindo. Sem recepção, sem movimento, não têm pipoqueiro ou algodão doce na porta.

Hoje, espalhados pela cidade, poderiam ser o esconderijo do Coringa ou a casa do IT.
 
Estão lá, parados, quietos, sustentando antenas e memórias.
Eles ainda funcionam como casas de máquinas que mantêm a internet e o sinal de celular vivos.

A gente passa na frente todo dia, sem notar. Conectado no 5G, postando stories, mandando áudio de 2 minutos, sem saber que o prédio ali do lado está sustentando conexões invisíveis. Não estão abandonados, mas ignorados.

Exercem uma função invisível, técnica, quase intangível.
Mas vai para algum lugar sem sinal pra sentir o “intangível”.
 
Passo por um todos os dias, no caminho do trabalho.
Não recebo mais o convite de ir até a Telefônica.
A turba em volta do avô orgulhoso está silenciosa.
Cada um com sua Telefônica no bolso.
A conexão existe, mas a magia se extinguiu.
A facilidade transformou o especial em obsoleto.
O ritual de sexta-feira acabou.

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