Memórias
As lembranças são a base de quem somos hoje
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Contadora
Minha mãe era especialista em contar histórias. Tenho muitas dessas lembranças guardadas, algumas vívidas como se tivessem acontecido ontem. Tive a sorte de ser aluno dela em duas séries: Pré e 3ª (hoje 4º ano). Quando eu era pequeno, ousei mentir sobre algo que já nem me lembro. Então ela me contou uma história do
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Telefônica
– Vamos para a “Telefônica”? – convidava meu vô aos netos. Esse era um ritual da sexta-feira, durante as férias de verão em Peruíbe. Sexta-feira era o dia de falarmos com nossos pais que ficaram trabalhando onde morávamos. E porque ir a algum lugar? Porque entre Graham Bell – ou seja lá quem for que inventou o telefone – e o celular, falar ao telefone confortavelmente na poltrona destinada para isso, era mais caro do que ter um iPhone. Não é à toa [caros jovens leitores] que se diz “telefone fixo”, quando o aparelho precisava estar ligado a uma tomada específica na parede. Assim era a vida de quem queria…
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Foto
O sorriso forçado, a careta, a palma do parabéns na atrás do bolo, o gato com língua pra fora, o cachorro fazendo arte, o carinho em pixel. Antigamente, a foto registrava a lembrança no papel. Você escolhia o instante no tempo e espaço para materializar a recordação. Hoje, tirar uma foto é banal. Você nem pensa pra fazer uma foto. A câmera fotográfica que era mais um objeto na casa, virou um...
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Não me Pergunte
A curiosidade é um app sádico: coleta, compartilha e ainda pede atualização. Aí vem a notificação: "Fulano está curioso sobre sua vida. Deseja permitir acesso?" A curiosidade sem ética não é afeto — é coleta de dados pra reality show da vida alheia. Tem gente que não quer te conhecer, relacionar, compreender — quer cavar. E cava com sorriso, dizendo: “Tamo junto.” "Junto", nada. É mineração de dados afetivos.
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E Se Um Anjinho Passar?
"Não fala isso! E se passar um anjinho e falar amém?" Era assim que minha mãe me ensinava a não desejar coisas ruins pra mim ou para outras pessoas. Esse "provérbio" me acompanha até hoje. É primo daquele ditado: "Não 'gospe' pra cima que cai na sua cara." "Gospe" mesmo, porque eu não sabia o que era cuspir. São pérolas que grudam na memória. O detalhe é que ela não me avisou...
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Amor e Ódio da Árvore
Caesalpinia peltophoroides, a minha eterna inimiga, também conhecida como Sibipiruna. Minha primeira atribuição era varrer a calçada da escola. Eu chegava às 13h. Isso significa que a folhinha dessa árvore estava me esperando a pelo menos 6 horas. Durante esse tempo ela chama as amigas para caírem também. Comecei com uma vassoura de piaçava...
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O Sabor da Saudade
Sexta-feira é dia de bolo. Até hoje, depois de tantos anos de casado, sempre que possível, tem bolo em casa. Minha mãe não gostava de cozinhar. Ela fazia pratos gostosos, mas não era a sua praia. Mas tenho guardados com carinho, como quem guarda as fotos de um álbum, alguns pratos que ela fazia. O molhinho de queijo derretido com tomate e cebola era meu lanche preferido. A maionese do churrasco, que era obrigatória. O pudim que tinha mais furos que um queijo suíço. E, claro, o bolo de pão. Ah, o bolo de pão. Aquele com...












