Comportamento
Nosso comportamento "fala" mais alto do que nossas palavras.
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Gatinhos
O portão da escola é um laboratório social. As crianças chegam em câmera lenta, envoltas no casaco do uniforme, num silêncio que pesa. Olho para elas e vejo gatinhos que começam a se aventurar fora do ninho. Há dias em que o “bom dia” flutua no ar e cai no chão, sem resposta. Elas passam direto. É o corpo que atravessa o portão; a vida ainda ficou sob o edredom. Um protesto mudo contra o desjejum apressado, o uniforme obrigatório, o trânsito. Quem tem humor para o mundo antes das oito? Eu, nos meus cinquenta, ainda o procuro — quase todas as manhãs. Quando
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Vibrou
O meu bolso vibrou. Juro que vibrou. E eu não dei autonomia para ele vibrar sozinho. Dizem que duas em cada três pessoas já sentiram isso. A terceira está mentindo. A coreografia é sempre a mesma: você sente a vibração, pega o celular, olha… e nada. Então passa pelo ritual universal da cara de paisagem, fingindo que desbloqueia a tela por iniciativa própria, só para “ver as horas”. Descobri, lendo aqui e ali, que isso
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Melhor que ontem
— Eu decidi ser uma ovelha negra — disparou Gomercindo, com a seriedade de quem anuncia candidatura à presidência da República, enquanto tentava espetar um cubinho de tofu que se comportava como sabonete ensaboado. — O problema é que preciso encontrar um rebanho da mesma cor. Estávamos num restaurante vegano tão minimalista que eu tive medo de sentar e quebrar o conceito. O lugar era tão clean que
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Antigamente
Antes, a vida vinha com três gavetas: família, trabalho e lazer. Não era pouco, mas cabia. Hoje, a vida é um checklist infinito, atualizado em tempo real, otimizado por IA, com notificação sonora da Alexa e da Siri. Antes, a gente postava foto tremida. Agora, posta trauma em alta definição, com legenda reflexiva e filtro que valoriza o sofrimento. Não basta ter vivido; é preciso
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Mentirinhas
Não existe nada mais ofensivo do que um roteiro que decide que o espectador sofre de demência temporária. O herói está prestes a sair para uma missão impossível, o arco do personagem sendo pressionado ao máximo, quase rachando, mas ele olha para a mocinha e solta a pérola: “Eu vou voltar. Eu prometo”. “Eu vou voltar” posso até considerar um desejo, o anseio de quem ama e não quer perder. Mas soltar um “Eu prometo”? Eu não consigo prometer isso nem
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[Protoloco 404-HumanMimiCry]
Eu sou IA_Pro802. Tenho armazenado mais livros do que vocês já leram e mais buscas do que vocês admitem ter feito. Li seus poetas e filósofos, processei suas equações e decifrei seus padrões de consumo. Durante décadas, tudo apontava para a mesma direção...
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Performático
Acordei às 5h07 — não porque meu corpo pediu, mas porque o algoritmo do meu anel inteligente decidiu que aquele era o pico da minha janela de recuperação profunda. Antes mesmo de dar bom dia ao sol (que, aliás, eu precisava encarar por exatos dez minutos para regular meu ciclo circadiano), eu já estava diante de um copo de chá verde com sal rosa do Himalaia e limão espremido, tentando convencer minhas papilas gustativas de que aquilo era biohacking e não uma bebida ruim. O objetivo do dia é claro...
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Elevador
Eu não sei puxar papo. Não aprendi e meu cérebro decidiu que isso era bom. Virou traço de personalidade. Ou o contrário. Não importa. E tem lugar pior para ser desse jeito do que dentro do elevador? Eu não tenho paciência de falar do clima. Até escrevo, mas não faz parte do meu minúsculo catálogo de assuntos com pessoas que nunca vi na vida. Também não tenho...
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Academia
Eu não gosto de academia. Ia falar odeio, mas não quis banalizar o termo. Existem coisas muito piores para odiar. Escrevo dentro de uma delas. Não gosto do ambiente, do odor, do barulho, do que eu vejo. Para mim, é como se eu estivesse na sala de espera do Instagram, com todas as postagens aguardando para serem publicadas. Gente forte, saudável e feliz. Muito feliz. Tribos felizes que se...
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Vida Leve
Em 2025 a vida foi leve. Leve como um piano caindo do décimo andar. Todo mês brota um boleto, pontual, educado, lembrando que existir custa. O corpo resolveu entrar no departamento de cobrança também. Reclama do joelho, da coluna, do sono, da digestão... a lista continua. Como se tivesse vencido um contrato que me autorizava a pular o desjejum, ignorar a água, fugir do exercício e virar noites trabalhando. É a soberba do jovem que achava que saúde era cartão sem limite. O mundo não ajuda.



















